Revista Varia Historia 45 - ResearchGate

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ResenhaHUINZINGA, Johan. O outono da Idade Média. São Paulo: Cosac &Naify, 2010, 656 p.LUIZ ARMANDO BAGOLINProfessor Doutor Docente e pesquisador da área de história da arteInstituto de Estudos Brasileiros - IEB/USPlbagolin@usp.brSe confiasses teu barco ao sabor dos ventos, não navegarias para a direçãodesejada, mas para onde eles te levassem; se jogasses tuas sementes noscampos, haveria a alternância entre os anos bons e ruins. Tu te abandonasteao domínio da Fortuna: deves submeter-te aos caprichos de tua mestra. Pretendes sustar a rápida revolução de sua roda? Oh, insensato! Então a Fortunanão seria mais a Fortuna.Boécio, A Consolação da FilosofiaExtraída de A Consolação da Filosofia, de Boécio (livro II, 1), a citaçãoacima repropõe a imagem da Fortuna (Týche) como circular, produzindose desde a História de Heródoto, na qual a Fortuna é roda, que não cessade girar, alternando, no alto e no baixo, vitoriosos e derrotados, elevados edecaídos, luz e treva, verão e inverno. Johan Huizinga a revisita, a roda daFortuna, em seu livro O Outono, recolhendo-a nas histórias de Chastellain,Froissard, Eustache Deschamps, Meschinot, Mathieu d’Escouchy, JeanGerson, Dionísio Cartuxo, Ruysbroeck, Eckhart, Suso, Tauler, assim comonas pinturas dos Van Eyck e de seus sucessores, para a construção desua história das formas de vida e de pensamento presentes na Borgonha,na França e nos Países Baixos durante os séculos XIV e XV. O cronistaassemelha-se a um pintor que traz para o seu quadro certamente um colorido artificial, mas que imita as cores naturais. A moderação implícita nacrônica, não sua exatidão, implica que se considerem as diferenças entreaquele tempo e o nosso, dele muito distante. O príncipe era visto de formaesquemática, simplificada e ao mesmo tempo fantástica, sendo o imagiVARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 27, nº 45: p.363-366, jan/jun 2011363363

Luiz Armando Bagolinnário político do público afetado diretamente pela canção popular e peloromance de cavalaria.Não dominando os gêneros retóricos implicados na constituição destesdiscursos enquanto crônicas, Huizinga, confere a eles um grau de realismo, ainda que reconheça que este seja bem menor que o proposto para odocumento oficial utilizado pelo medievalista tradicional. Como media resou posição intermediária na roda, o mal que para o historiador, seguindoos cronistas, existiu, pode tanto seguir seu curso rumo à sua extinção pelobem, pela luz, quando o movimento for ascendente, quanto, o contrário,seguir para a escuridão extrema, no descendente, lugar da crueldade, doterror e da miséria. Diante de um mundo mesquinho, cruel e miserável, aohomem medieval, segundo Huizinga, restaram apenas três saídas, trêscaminhos: o da “renúncia”, o do melhoramento do próprio mundo e o do“sonho” ou da aspiração por um mundo inundado de beleza no qual artee vida se serviriam mutuamente.Como ideal de vida bela, a “estética cavalheiresca” traduz-se pelodesfile de belos trajes e sentimentos elevados de honra, nobreza e virtuderepresentados pelo orgulho em enfrentar o perigo. O topos que circula é odo aristoi, o herói despojado, casto, defensor das mulheres a quem honrapor amor e cujo exemplo é Jean Le Meingre, le maréchal de Boucicaurt.Degenerando o teatro da vida idealizada por detrás da viseira do cavaleiro,dá-se lugar ao sentimento da vida pastoral, às formas do gênero campestreem que se canta a tranquilidade do bucólico, não sem que se desconsidereou cesse a imposição da presença da morte ou de sua lembrança recorrente (memento mori) como imagem da deterioração e do apodrecimento.As danças da morte expõem-se quase nunca fantasmagóricas, porque oscadáveres exibem os seus ventres abertos, rindo de escárnio de nobres eplebeus por entre nesgas de carne e vestes pendentes, como na figura damorte no Cemitério dos Inocentes.Não havendo escapatória à morte, pois seus dignitários escabrososestão prontos a ceifar toda a inveja, mas também todo orgulho, atenuam-seas fronteiras entre o sentimento religioso e o erótico, que faz do primeiro,dentro dos limites de uma inconveniência proposital, um sentimento vicário.Huizinga vê, no entanto, o cruzamento do erótico com o religioso como“irreverência blasfema para com o sagrado” tornada possível graças àsincongruências, aos descompassados do “espírito medieval”. Como exemplo, acolhe o Díptico da Madona de Antuérpia ou Díptico de Melun, pintadopor Jean Fouquet, particularmente quanto à representação da Madona,mostrando-a, com um dos seios desnudo e redondo como um pequenoperfeito melão, lívida como o manto branco que recobre seus ombros ecostas, deixando à vista o seu colo, alvíssimo, apertado por um corseletemuito justo de fino veludo cinzento que se abre na altura de seu diafragma.Para o autor, “apenas uma sociedade totalmente permeada pelo sentimento364

Resenhareligioso, e que aceita a fé como algo óbvio, conhece todos esses excessose degenerações”. Portanto, os inúmeros exemplos, raros na arte, mas corriqueiros nas crônicas de época, de devassidão e desrespeito aos lugarese signos sagrados, não podem ser interpretados como ateísmo, mas comouma forma estranha, controversa, de devoção.Exprimir o “inexprimível”, eis o que se lia na palavra de São Paulo aosCoríntios, por exemplo: “videmus nunc per speculum in aenigmate, tuncautem facie ad faciem”. “Ver face a face”, entretanto, não é expressão quedeva ser interpretada como designativa de um ato empírico, fruto de um“pensamento causal”, oposto ao “simbólico”, conforme propõe Huizinga.“Do ponto de vista do pensamento causal”, diz Huizinga,o simbolismo é considerado um curto-circuito intelectual. O pensamento procuraa conexão entre duas coisas não ao longo das sinuosidades ocultas de seusvínculos causais, mas sim saltando por cima das conexões de causa. A conexãonão é um elo entre causa e efeito, mas entre significado e objetivo.Como metáfora estendida ou continuada, a alegoria é um tropo de pensamento que substitui um pensamento em causa por outro, por relação desemelhança a ele. Por um lado, a construção da representação, como fala eescrita, por outro, uma hermenêutica, ambas reguladas quanto à adequaçãoentre um sentido figurado e um sentido próprio. Adepto aparentemente davisão romântica, segundo a qual a alegoria é vista como artificial e fria, uminvólucro vazio e exterior, oposta, portanto, ao símbolo, autorrepresentativo,signo ou manifestação de uma qualidade interior, não nominativa,Huizinga propõe a alegoria como sendo um “simbolismo projetado numpoder de imaginação superficial” com “o potencial de ser reduzida a umpedante lugar-comum e ao mesmo tempo reduzir uma ideia a uma imagem”.Mas e a arte? Uma das motivações de Huizinga ao escrever O Outono foi ade perceber como as formas de vida da cultura franco-borguinhã do finaldo século XV poderiam ser compreendidas a partir da pintura dos Van Eyck,assim como de Rogier van der Weiden e Memlinc, e da escultura de Sluter.Mas entendido pelo autor como um “poslúdio sem fim”, a poluição visualdo “estilo flamboyant gótico” revelaria o esgotamento de um sistema derepresentação formal aliada ao horror vacui, “que dá a cada detalhe umaelaboração contínua, a cada linha, a sua contralinha”.Como expressão tardia da arte do período, a pintura dos Van Eyck exibe“a imaginação terrena do divino” a partir do mais extremado “naturalismo”consoante às representações textuais a ela contemporâneas, tais comoos sermões de Johannes Brugman ou as descrições de Dionísio Cartuxo.Huizinga acredita que a pintura permaneceu na “seriedade dos trípticos edo retrato”, enquanto a “literatura” escancarava “o sorriso voluptuoso dasátira erótica e do horror monótono da crônica”. Refém da “elaboração irrefreada de detalhes”, a pintura torna-se um gênero subordinado ao cômico,VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 27, nº 45: p.363-366, jan/jun 2011365

Luiz Armando Bagolinao burlesco, segundo o autor, mas ainda neste terreno, ela é ultrapassadapela palavra.A pintura do norte do século XV, diferentemente do que acontece coma italiana do Trecento, da época de Giotto, não busca o sentido de coesãodos elementos representados, carecendo de ritmo e perspectiva. Retórica,oratória e poética são vistas pelo autor como temas que passam a comparecer nos escritores franceses do século XV, principalmente, aliandoaos antigos cronistas, Chastellain, La Marche, Molinet e outros, os novosrepresentantes de um estilo humanista, como Villon, Coquillart, Henri Baudee Carlos de Orléans.Enrijecido por uma visão evolutiva de acordo com a história das mentalidades sob a qual não disfarça a teleologia aplicada à produção artística,Huizinga não consegue visualizar a pintura que tanto o encantou comouma máquina retórica para a qual a alegoria, como parte da elocução, éimportantíssima, encarecendo pelo ornatus o discurso. É esta máquina,longe de ser um tropeço para o pensamento, que faz circular a metáforapor toda a parte onde a Fortuna se apresente.366

363 Resenha VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol. 27, nº 45: p.363-366, jan/jun 2011 363 HUINZINGA, Johan.

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No. Per API 650 Section 3.2.4, the tank is limited to one in. of water vacuum (roughly 25 mm). If the tank must be designed for 50 mm water vacuum, then this is a special design which is not covered by API 650. 3.2.4 9th - May 1993 Should the vacuum relief system set pressure be 25 mm of water if the required design vacuum condition is 50 mm of water? API 650 does not cover the required .