DEITADO NO CHÃO. O ROMANCE CLARABOIA NO CONTEXTO DE UMA .

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DEITADO NO CHÃO. O ROMANCE CLARABOIANO CONTEXTO DE UMA PRÉ-HISTÓRIA LITERÁRIADE JOSÉ SARAMAGO1Luís Ricardo DuarteJornal de Letras, Artes e IdeiasResumo: Em 1980, quando publica Levantado do Chão, José Saramago é um escritor formado: noestilo, na temática e na ideologia. Mas que percurso fez até se erguer a tamanhos voos? A análise,assente na leitura dos seus dois primeiros romances, Terra do Pecado, de 1947, e Manual de Pintura eCaligrafia, de 1977, tem de ser revista à luz de Claraboia, romance de 1953 só publicadopostumamente. Em conjunto, as narrativas iniciais de Saramago definem três etapas da suaconstrução política.Palavras-chave: José Saramago, Claraboia, política, romance, formação.Abstract: In 1980, when Saramago publishes Raised from the Ground, he is already a writer with afull mastery of style, themes and ideology. But what was the path that took him to such heights?Any analysis of his first two novels (Land of Sin, 1947, and Manual of Painting and Calligraphy, 1977)must also consider Skylight, his 1953 novel, posthumously published. In their ensemble, the firstnarratives by Saramago define the three steps of his political making.Keywords: José Saramago, Skylight, politics, novel, training.1Uma versão preliminar deste texto foi apresentada nas III Jornadas Internacionais José Saramagoda Universidade de Vigo - Saramago nos 20 Anos do Prémio Nobel: Literatura, Arte e Política (35 de dezembro de 2018), tendo sido gravada pela UVIGO TV.26

– O que pensa fazer?, Abel?O rapaz ergueu-se devagar e caminhou para Silvestre. A doispassos, respondeu:– Uma coisa muito simples. Viver. Saio de sua casa maisseguro do que quando nela entrei. Não porque me sirva o caminho queme apontou, mas sim porque me fez pensar na necessidade de encontraro meu. Será uma questão de tempo.José Saramago, Claraboia1. Mapear os caminhos percorridos por um escritor até à afirmação da sua vocação literária é umaestimulante atividade crítica. Ainda mais no caso de José Saramago, dada a especificidade do seupercurso, de torneiro mecânico a Prémio Nobel da Literatura, e a publicação póstuma do seusegundo romance, Claraboia.Durante muitos anos, o trajeto formativo de José Saramago foi assunto arrumado econhecido: um precoce primeiro romance aos 25 anos, Terra do Pecado, de 1947, seguido de umsilêncio de 30 anos só quebrado com a publicação, em 1977, de Manual de Pintura e Caligrafia,romance em forma de ensaio, ou melhor, um “ensaio de romance” como o próprio designou naprimeira edição. Um (re)começar, aos 55 anos, com novos recursos, outra experiência e maturidade,ingredientes que desabrochariam plenamente em Levantado do Chão, obra saramaguiana porexcelência, no estilo e na temática.Concluído em 1953, Claraboia diz-nos diretamente que, também ao nível do romance,aqueles 30 anos não foram uma gestação invisível, como a experiência da poesia, no final da décadade 60, e o posterior ofício da crónica, cada vez mais valorizados pela crítica, já denunciavam. Osurgimento de um romance entre Terra do Pecado e Manual de Pintura e Caligrafia abanou o sólidodiscurso sobre as etapas cumpridas pelo escritor nos seus verdes anos. Que lugar atribuir a Claraboiano contexto das primeiras obras de Saramago? Que alterações introduz este romance na suaformação literária, na qual o ressurgimento após 30 anos de interregno tinham a força de umasegunda vida? Em suma: que escritor era Saramago quando escreveu sobre as vidas dos moradoresde um prédio de dois andares e que lições guardou desse “livro de uma inexperiência vital” (in Reis18), como diria mais tarde?“A publicação de Claraboia vem, em simultâneo, preencher um vazio e suavizar umalinha de disparidade até agora existente na produção ficcional saramaguiana”, afirmou, logo em2011, Ana Paula Arnaut (Como um homem 38). Efetivamente, com este romance intuiu-se umaevolução mais linear e coerente de Saramago, ao identificar-se com maior objetividade as etapas27

que terá percorrido. Na verdade, ao ler Claraboia ao lado das obras de 1947 e o de 1977 somostentados a propor um novo ciclo na sua produção literária,2 vendo nesses romances uma unidadecoerente e a expressão de três marcos essenciais na “aprendizagem do romance”: a afirmação doescritor-leitor (Terra do Pecado), que aplica modelos oitocentistas, do escritor-humanista (Claraboia),que denota uma posição ideológica vincada, e do escritor-autor (Manual de Pintura e Caligrafia), capazde subverter o romance clássico e afirmar uma voz própria. Etapas cumulativas de um percursosingular.Se a História se distingue pela invenção da escrita, tendo o seu equivalente na obra deSaramago em Levantado do Chão, estamos no campo de uma pré-história literária, diante de umescritor ainda deitado no chão.2. Não se pode dizer que a publicação de Claraboia, em 2011, tenha sido uma surpresa completa. Oromance fora referido, em 1998, por José Saramago nos diálogos com Carlos Reis. Dele disse oescritor:É imediatamente a seguir [a Terra do Pecado]. Escrevi esse livro, que se chamaClaraboia e é um romance. É a história de um prédio com seis inquilinossucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está malconstruído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto merecordo, tem coisas que já têm a ver com o meu modo de ser. (in Reis, Diálogos43-44)Na mesma conversa, o escritor explicou por que motivo o romance continuava inédito:O livro foi enviado para um editor, para o Diário de Notícias, por lá ficou quarentaanos, até que um dia recebo uma carta dizendo: “Foi encontrado, nareorganização dos nossos arquivos, o original do seu livro etc., etc.” E entãodiziam logo: “Se quiser publicar, nós publicamos”. Fui lá, à Empresa Nacionalde Publicidade, e saquei o livro que está aí. (44).Numa entrevista ao Jornal de Letras, Pilar del Río, viúva do escritor, acrescentou outrasinformações, nomeadamente em relação à publicação póstuma. Da reação de José Saramago disse:Não olhou muito para ele [o original trazido da editora]. Era uma mágoa, umaferida que não valia a pena voltar a abrir. Ao passado o que é do passado, disseme. Às vezes falávamos do livro e ele sabia que não era mau – tinha essaconsciência. Mas não era pessoa de remexer em assuntos encerrados, tal como2Tendo como base a proposta de Ana Paula Arnaut de três ciclos – “Portugalidade Intensa”,“Temas Universalizantes” e “Romances Fábulas” (Novos Rumos 51 e 70).28

nunca foi escritor de voltar a livros já escritos. Trabalho feito era trabalho feito.(in Río/Duarte, “Nascemos” 8)Da decisão de publicar o livro, adiantou:Saramago apenas disse que não queria vê-lo publicado enquanto fosse vivo.Nunca impediu a sua publicação – e não o destruiu. Em vida, também não foipossível porque não houve tempo: todos os anos lançava um romance novo! Masnão foi difícil perceber que queria que o publicássemos. (8)Um olhar rápido pela cronologia das obras de Saramago desde o final dos anos 80 (ooriginal foi recuperado em 1989) confirma a afirmação de Pilar del Río. Diários, contos, discursos,folhas políticas, contos infantis e, claro, romances – adiar que livro para lançar uma obra dejuventude? Claraboia seria assim publicado um ano após a morte do escritor, numa espécie de últimoencontro com os leitores, momento repetido, em 2014, com a publicação do inacabado Alabardas,Alabardas, Espingardas, Espingardas.Além de Ana Paula Arnaut, outros especialistas sublinharam na altura a importânciado romance e da sua publicação. Na referida entrevista, Pilar del Río afirmou ainda:Claraboia é um livro fundamental na obra de Saramago, uma ótima porta deentrada para a sua literatura. O escritor está em todo o romance, de uma formaconvencional, é certo, mas é possível escutar a sua voz. [.] E, por favor, nãodigam que é um livro de juventude ou ingénuo. É de uma esplêndida maturidade,um livro luminoso sobre uma época sombria. (8)Para a também tradutora da obra de Saramago, a leitura do romance evidencia a“maturidade do pensamento e do estilo”, bem como “o domínio já demonstrado da arte de narrare da cultura”, com diálogos (“atrevidos”) com Shakespeare, Cervantes e Pessoa, muito humor,ironia e música.O escritor já está revelado neste livro. Abel, por exemplo, podia ser Ricardo Reis,do Ano da Morte de Ricardo Reis, H., de Manual de Pintura e Caligrafia, o Sr. José, deTodos os Nomes, ou Raimundo Silva, da História do Cerco de Lisboa. É o mesmoprotagonista solitário, o mesmo homem sozinho. A sua forma de olhar o mundoestá lá. O estilo é diferente, mas a voz já aparece. (8)Outros julgamentos menos parciais (e apaixonados) não divergem. Maria Alzira Seixo,na mesma edição do Jornal de Letras, aludiu a uma “claridade viva”:É certo que o livro se não me impõe pela composição fulgurante (como AsIntermitências da Morte), pelo saber miúdo da textura (como em Memorial doConvento), pela ideia envolventemente insólita que lhe caracteriza grande parte da29

obra (O Ano da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra) e tanto me seduz. Mas é jáum belo romance. (Claridade viva 10-11)Também no Jornal de Letras, dois anos mais tarde, Miguel Real escreveu: “Claraboia éum verdadeiro e genuíno retrato da vida e dos costumes dos moradores de um bairro pequenoburguês. Do mesmo modo, pode ser entendido como uma metáfora da falta de luz e ar na vidacoletiva do prédio que se evidencia como síntese da totalidade de Portugal” (O elo 15).3. É impossível, ou pelo menos muito difícil, não tentar identificar os fios invisíveis que poderãoligar Claraboia aos romances anterior e posterior. É esse, aliás, o sentido das críticas que temosvindo a citar e, ao fim e ao cabo, o propósito deste trabalho.O ponto de partida é o exposto por Ana Paula Arnaut no artigo do jornal Público:Se Terra do Pecado em nada anuncia o estilo e as temáticas que caracterizariam oautor a partir de Manual de Pintura e Caligrafia, prendendo-se, ainda, a toda umadinâmica literária colhida no Realismo-Naturalismo de Oitocentos, este romance,de 1953, permite já antever algumas das ousadias formais e das grandespreocupações humanistas e humanitárias que nortearão o escritor a vir. (Comoum homem 38)As ousadias formais e sobretudo as preocupações humanistas são, de facto, oselementos mais importantes de Claraboia na definição do percurso formativo de José Saramago,agora que os dados parecem estar integralmente revelados.3 Nesta lógica, podemos entendê-locomo a expressão literária de um escritor-humanista que já fez as suas principais escolhasideológicas, enquanto Terra do Pecado é acima de tudo a expressão literária de um escritor-leitor.4. Publicado em 1947, numa época em que o Neorrealismo já dera à estampa alguns dos seusprincipais romances, Terra de Pecado é o que se pode dizer, para usar a expressão de Carlos Reis, um“romance bem escrito” (Introdução 18). Trata-se de um livro com a marca do RealismoNaturalismo do século XIX, definível no caso em apreço, segundo Ana Paula Arnaut, pela3Na conferência de imprensa sobre as atividades da Fundação José Saramago que assinalaram oscinco anos da morte do escritor, Pilar del Río anunciou a descoberta de uma peça de teatro inéditade José Saramago, O fim da paciência, adaptação de um conto publicado em Objecto quase, de 1978, eque nunca chegou a ser levado à cena. Ver orte-ainda-ha-saramago-por-descobrir, consultado a 27 de junho de 2015.30

“linearidade temporal” da história, o recurso a uma sintaxe e pontuação “canónicas” e a uma “clarainspiração em enredos e em personagens queirosianas na urdidura do romance ou na conceção depersonagens” (Novos Rumos 15).Que a obra surge de muitas leituras confirma-o o próprio Saramago. “Aquele livroresulta do seguimento de leituras mal arrumadas e mal organizadas – e saiu aquilo”, confessou oescritor a Carlos Reis (in Reis, Diálogos 35). No ensaio citado, Ana Paula Arnaut reforça a tese aosublinhar o interesse “arqueológico” do romance “para os estudiosos da vida e da obra de JoséSaramago, na medida em que nos permite traçar a sempre útil ligação entre a obra produzida e ocontexto que lhe dá origem”. Em concreto:O desfasamento entre o estilo deste primeiro romance e as modas literárias daépoca em que é publicado pode, eventualmente, ser explicado em virtude de doisfatores fundamentais. Em primeiro lugar, porque os primeiros livros lidos(emprestados pelos vizinhos ou consultados na Biblioteca do Palácio Galveias,em Lisboa) pertenciam, seguramente, à categoria dos Clássicos da LiteraturaPortuguesa. Em segundo lugar, porque o seu percurso de vida inicial não lhepermitiu o contacto com as elites intelectuais da época, ou com os grupos denovos escritores que, de forma gradual, se iam afirmando (mesmo que de modoquase clandestino) no cenário literário nacional e internacional. (Arnaut, JoséSaramago 16)Num estudo dedicado ao período formativo de José Saramago, anterior à publicaçãode Claraboia, Horácio Costa avançou argumentos semelhantes: “Tomado de forma isolado nocontexto da literatura da época da sua publicação, o exame de Terra do Pecado revela que, comoobjeto literário, o livro apresenta uma notável desfasagem estilística e mesmo temática em relaçãoà escrita romanesca que então se processava em Portugal” (José Saramago 28). A justificação doinvestigador?Vivendo em Lisboa a partir do final da adolescência, Saramago lê, sem um fiocondutor metódico, matéria literária de distinta origem que, como bem podemostestemunhar hoje, deu uma primeira mostra de concretização na escrita de Terrado Pecado. Considerado deste ponto de vista, o romance adquire um matizsignificativo, enquanto documento vivo do estádio de adaptação do jovemautodidata à realidade de um novo meio ambiente, urbano e tão cosmopolitaquanto o permitia o regime salazarista. (41)Testemunho de um leitor que não se fica pela leitura? Que nela se envolveexcessivamente (como a Isaura de Claraboia) ao ponto de a prolongar por sua conta e risco? Aavaliar pela temática de Terra do Pecado (que surpreende o leitor dos romances futuros de Saramago,muito mais do que o estilo), a hipótese faz todo o sentido. O que terá levado, a não ser a leitura,31

um escritor como José Saramago, que já supomos, aos 25 anos, com alguma consciência política,a se dedicar a um imaginário tão terratenente?Muitos anos depois o escritor também se revelou surpreendido:A verdade é que eu não sei porque é que contei aquela história. É a história deuma senhora viúva (o marido morre no princípio) que tem dois filhos; tudo istose passa num meio que é mais ou menos o dos meus lugares natais: a aldeiachama-se Miranda e é uma quinta (chamada Quinta de Miranda) que está ao ladoda minha aldeia. Trata-se de proprietários rurais, pessoas que eu não conheciefetivamente porque nunca vivi nesse meio, mas enfim, lá imaginei aquilo. (inReis, Diálogos 42-43)É certo que a classe trabalhadora é representada com dignidade, em particular nafigura do abegão Jerónimo e na cena amorosa do palheiro, entre Teresa e o seu amante, que tantoperturbará Maria Leonor. Também se expõe, desde as primeiras páginas, uma visão crítica dareligião através da revolta dos camponeses perante a morte do patrão, das dúvidas do prior e doespírito racionalista de Pedro Viegas, o médico da aldeia e da família. Mas estamos muito longe doposicionamento político de obras futuras.Mesmo com estas nuances, Terra do Pecado é um romance sobre as perturbações de umaclasse social favorecida que não sendo ociosa não está condenada à exploração pelo trabalho. Semser convencional, porque se dá ao luxo de sentir e pensar com ousadia, vive de caprichos. No seudesvario emocional, Maria Leonor ora sucumbe ao sofrimento, ora maltrata os filhos, ora acordacom uma energia inquebrantável, ora cede às investidas de corpos alheios. Não é propriamentematéria que associamos ao escritor militante que José Saramago se tornaria, sobretudo a partir deLevantado do Chão ou, antes, das suas crónicas.Trata-se, como destacou noutro estudo Ana Paula Arnaut, de um romance “aindanitidamente ensombrado, temática e formalmente, pela influência e inspiração queirosianas” (Postmodernismo 151). Influência queirosiana que se expressa fundamentalmente na relação entre MariaLeonor e Benedita, “quase réplica de Luísa e Juliana de O Primo Basílio”, como defendeu a ensaísta,na esteira de outros investigadores, como Carlos Reis, que a essa associação acrescentou,ironicamente, o seguinte comentário: “Já se sabe: não é fácil, a um jovem escritor, calar ecos deleituras marcantes” (Introdução 18).Claro que, conhecendo os grandes romances de Saramago e o seu estilo (“feito dequase constantes associações de imagens, jogos verbais insistentes, de um fluir ininterrupto, tantono plano da história, como sobretudo no do discurso”, na síntese de Carlos Reis, “Introdução”32

19), seria possível identificar, em Terra do Pecado, a semente de opções narratológicas futuras.Referimo-nos ao facto de o narrador nem sempre dar mostras da sua omnisciência e omnipresença,colocando alguns limites, o que se revela sintomático na enunciação tardia do nome de algumaspersonagens (ficando o narrador à espera que sejam apresentadas por outros); ao gosto pelotesouro popular (muito presente nos textos de Saramago, como notou Maria Alzira Seixo, O essencial48) que resulta de quem consegue suprir a “falta de cultura vulgar com a prática de anos vividosdebaixo do sol” (Saramago, Terra do Pecado 91); a uma certa tendência para a futurologia, comcontornos de ficção científica (fomentada nas décadas seguintes pela odisseia da chegada à Luaque, a avaliar pelas crónicas, terá fascinado José Saramago), como a que vemos na boca de PedroViegas quando pergunta: “Admiras-te que, um dia, quando a terra estiver esgotada de tudo, quandodo solo já não sair mais que ossos e pedras, restos de gerações e civilizações dos outros, os futurosdeixem o cadáver inútil deste planeta para procurar novos lares no infinito?” (Terra do Pecado 256);à importância dada ao carácter ambíguo e inescapável da mentira e da aparência que ensombraMaria Leonor (“pensava na teia emaranhada de mentiras em que a sua vida se ia tornando. E viaque o seu futuro seria feitio, destituído de sentido moral e de direção definida. Teria de amoldar oseu comportamento, o seu espírito, à necessidade de manter de pé, a todo o custo, a aparênciaaustera da sua existência”, Terra do Pecado 270); à presença do tema da cegueira (“outros olhos, quenão andassem cegos por esse nevoeiro imaginário”, 293); às discussões em torno da fé e da bondadede Deus; e, até, à presença, com contornos bem delineados, de um cão.São indícios, como o da emancipação da mulher proposto por Horácio Costa (JoséSaramago 38-39), talvez mais emprestados ao texto do que dele retirados, como se se quisesseencontrar no passado a raiz de uma árvore frondosa. Em qualquer dos casos, a Terra do Pecadopoderemos sempre associar, sobretudo na perspetiva da formação de Saramago, a imagem de umescritor-leitor que, em Claraboia, será complementado por um escritor-humanista.5. A estranheza temática Realista-Naturalista que atinge o leitor em Terra do Pecado desaparecequando se chega a Claraboia. No seu segundo romance, Saramago está claramente junto dos seus.Pela classe social que têm, opressão a que são sujeitos e resiliência que demonstram, as personagensassemelham-se às que encontraremos em textos posteriores. Daí que seja essa a grande ‘novidade’de Claraboia: a de apresentar um escritor com um lugar no mundo, político e literário, bem definido.33

Claraboia é um romance com uma estrutura muito popular na década de 50 do séculoXX4 e que continua a interessar escritores no início do nosso milénio.5 Cada capítulo (excetuandoo primeiro, de visão panorâmica) foca-se num andar específico de um prédio e em nenhum, do résdo chão esquerdo ao segundo direito, encontramos figuras próximas do casal Ribeiro (Manuel eMaria Leonor), do prior ou do Pedro Viegas de Terra do Pecado.São, na generalidade, trabalhadores, operários, assalariados, homens e mulheres emluta por uma vida melhor.

28 que terá percorrido. Na verdade, ao ler Claraboia ao lado das obras de 1947 e o de 1977 somos tentados a propor um novo ciclo na sua produção literária,2 vendo nesses romances uma unidade coerente e a expressão de três marcos essenciais na “aprendizagem do romance”: a afirmação do